Ontem eu sonhei com meu pai a noite toda, e deu aquela
saudade imensa dele. A gente sempre teve um bom companheirismo, sobretudo na
fase adulta, riamos das mesmas coisas e de vez em quando passávamos horas vendo
filmes.
O que me fez remeter uma lembrança antiga, de uma única vez
que levei um cascudo dele; e pensando hoje: bem dado, fiz por merecer.
Era um mês de julho chuvoso em São Paulo, não parava um só
dia de chover, eu de férias com 11 anos, minha mãe teve que viajar para o
nordeste com meu irmão e só tinha em casa eu e meu pai. Meu velho trabalhava de
motorista de frota de ônibus quase o dia todo, só retornava à noite, eu ficava
na vizinha, mas chovendo e cheio de ordens dele para não dá trabalho, eu quase
tinha virado um monge budista mirim.
Com minha mãe eu aprontava, apanhava, mas dava
para levar, porque quase não doía nada e ela já estava acostumada com minhas
zoeiras de brigar na rua, escalar paredes, subir em árvores e etc. Já com meu
pai que quase não sabia dessas coisas e visto a sua postura austera, eu não
tinha a menor ideia de como ele reagiria. Só imaginava uma surra tremenda e um
sermão das montanhas quando terminasse.
Então por uma semana e meia eu me portei exemplarmente! Até
que na sexta-feira seguinte, fui como sempre à banca de revista para comprar um
gibi da Marvel, quando me deparei com uma revistinha que ensinava “Aprenda a
ser um mágico”; putz! Gamei na hora! Investi toda minha mesada de bom menino
que meu pai me deu nessa revistinha de mágico; até porque vinha nela um brinde: “Fósforo
mágicos”. Consistia numa caixa similar a qualquer outra, com palitos iguais,
nada de mais de diferente, entretanto “explodiam” feito bombinhas de São João.
Nessa época nada era politicamente incorreto e pregar peças ou comprar coisas
assim era o show. Comprei a tal revista, levei para casa e contei 24 palitos de
fósforos “mágicos”, testei três deles, e realmente fazia barulho e emitia uma
luz azul clara intensa.
No sábado meu pai ficaria em casa o dia todo, e lógico que
eu apresentaria meu número principal a ele; assim pensei...
Nesta manhã, meu pai acordou cedo, foi lavar roupa nossa no
tanque, não me chamou para ajudar, fez meu café e deixou-me acordar tarde.
Quando eu tomei o café fui varrer a casa e passar pano, e ele me dizendo como
era bom ajudar a mãe nessas coisas, e que não podíamos deixar a casa suja para
quando ela voltasse. Enfim fizemos uma faxina completa, roupas lavadas, tivemos
que deixar secando atrás da geladeira algumas e outras dentro do banheiro,
improvisando um varal porque ainda chovia, mas fino, uma garoa no sábado em São
Paulo. Meu pai avisou que iria fazer o almoço e depois iria jogar sinuca no bar
do japa no bairro, me deixaria ir para jogar nas máquinas de fliperama porque
eu estava sem brincar fazia dias. Lógico fiquei todo alegre e resolvi aprontar à
mágica rapidamente, sem ele saber, afinal mágico que é mágico não revela seu truque,
né?! Esperei que ele saísse da cozinha e troquei a caixa de fósforo normal pela
do “mágico”.
Fiquei como um totem, duro, tenso na cozinha, esperando ele
ir ligar o fogão para ver sua reação.
Não demorou não! O velho veio da sala pegou a frigideira e a
carne que já estava toda temperada por ele previamente, e colocou as tiras de
filé na frigideira e também foi colocando as panelas de arroz e feijão,
ocupando todas as 04 bocas.
E minha hora chegando, a hora que eu mostraria um grande
truque de mágica. Estava igual pinto na merda, ansioso com o evento que se
aproximava. Meu velho pegou a caixa e nem olhou nada e começou abri-la pegando
o primeiro fósforo... posso dizer a você que leu até aqui, que na minha cabeça
isso tudo era como câmera lenta, eu estava muito focado na ação dele, e nem
respirava de emoção com o desfecho chegando. E pronto, meu pai escolheu a
panela da frigideira como a primeira à ser acesa... e assim riscou o fósforo bem
pertinho da boca, o que eu achava antes que seria feito de longe, mas
não... ele fez debaixo da frigideira, colado com a boca do fogão... e a mágica
aconteceu:
- Foi um tiro de bala praticamente. A casa toda fechada e só
nós dois, o eco foi de um revolver sendo disparado. A tensão toda fez meu pai
sacudir a frigideira para o alto e o clarão azul tomou conta da cozinha; porque
ele não pegou um, mas dois ao mesmo tempo para acender. E nisso todas as
panelas caíram do fogão, pelo medo dele, saiu batendo e se apoiando em tudo que
era canto da cozinha, principalmente querendo me proteger, só sei que na hora
eu emiti um riso de nervosismo e por achar muita graça mesmo, dei aquela gaitada ampla de moleque o que me fez
entender porque é que nunca tinha apanhando antes... Senti no rosto uma mão
quente e dura sacudir minha cabeça igual um melão vindo no carrinho de feira e um cascudo tão grande que
ele chegou a estalar os dedos nela só com o cascudo. Eu, nem tive tempo de
chorar, corri feito menino com medo de apanhar e voei pela janela como um passarinho que descobriu uma fresta, na gaiola -
fui parar na rua, enquanto eu o ouvia abrindo a porta e correndo a trás de mim.
Fiquei lá o dia todo, até a noite, enquanto ele prometia que
o mágico iria ver a varinha balançar no meu traseiro. Não adiantou eu explicar
lá de longe que era um número de mágica. Não adiantou eu fazer
promessas. Não almocei, e a vizinha foi intervir e ficou comigo até que ele se
acalmou. À noite fui pra casa e não apanhei, ele também não disse uma só
palavra, por dez dias, ficamos calados dentro de casa. Até que minha mãe chegou
e botou ordem. Fui rebaixado de mágico oficial para leso oficial. E
nunca mais pude comprar coisas desse tipo e por 04 meses não li gibi algum.
Antes de morrer, meu velho ainda se referia a isso a todo
mundo que perguntava sobre minha infância. Ele ria muito, porque agora ele
achava graça, mas na época pensava que o botijão tinha explodido ou algo assim.
Valeu pelo sonho meu velho...
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